quinta-feira, 4 de agosto de 2016

ESTADO, GLOBALIZAÇÃO E NEOLIBERALISMO: o totalitarismo burguês em sua forma global.



Cláudio Anselmo de Souza Mendonça
Docente do COLUN/UFMA
Geógrafo
Mestre em Políticas Públicas
Doutorando em Políticas Públicas




O Estado jamais verá no “Estado e na organização da sociedade” a razão das mazelas sociais, como exige o prussiano do seu rei. Onde quer que haja partidos políticos, cada um deles verá a razão de todo e qualquer mal no fato de seu adversário estar segurando o timão do Estado. Nem mesmo os políticos radicais e revolucionários procuram a razão do mal na essência do Estado, mas em uma determinada forma de Estado, que querem substituir por outra forma de Estado. (MARX, 2010 a, p.38)


A perspectiva de analisar o neoliberalismo, da ótica que considero mais apropriada, ainda mais diante dos novos fatos envolvendo o Brasil no bojo do golpe parlamentar-judiciário-midiático[1], deve ser a partir de uma relação organicamente e dialeticamente interligada com a discussão do Estado contemporâneo e a globalização. Há, inevitavelmente, uma discrepância metodológica quando ao analisar o neoliberalismo não se leva em consideração que esta adaptação está imbricada a uma crise do capital e que a crise do capital é a crise do próprio Estado. Justo por isso que o percurso seguido, bem distante de um rio calmo, deve ser trajado nas águas planálticas. Há determinações históricas contraditórias endógenas que devem ser postas exogenamente.
Por considerar acertado o apontamento de Lukács (2014, p.28) que alerta “[...] que a sociedade desde o princípio é um complexo composto de complexos”, seguirei a insistência de Adorno e Horkheimer (1995, p. 12-3) que ao pensar e refletir sobre as questões sociais, tais pensadores lembravam sabiamente que seria prudente o caminho oposto aos caminhos da ciência oficial. A formalidade hegemônica da academia secundarizou ou até mesmo deletou conceitos chaves como totalidade, Estado, capital, geopolítica, o que de alguma forma, se tornou um prejuízo monumental para compreender o complexo composto de complexos, como totalidade, Estado, capital, geopolítica.
Como princípio iniciante de análise, compreendemos o neoliberalismo como uma adaptação do próprio capital onde tem como imperativo a mundialização do Estado, a territorialização planetária do fetichismo e da amplitude da opacidade fria da esfericidade burguesa. Concebemos o neoliberalismo como um processo que bem encarna o interesse totalitário do capital de controle de tudo aquilo que tem relação com o homem, ou seja, da política ao amor. Justamente por isso que inevitavelmente que capital e estado são palavras chaves, essenciais. Qualquer análise que secundarize este dois conceitos peca por ver os efeitos da correnteza, mas não a própria correnteza.
A lacuna proposital metodológica, um aspecto ideológico do novo papel que o capital assume também na academia, de alguma forma delega ao Estado uma sujeição abissal a outros imperativos.  A própria noção que se tem sobre o Estado é algo que reflete a hegemonia do pensamento burguês na intelligence. A sua presença no centro de algumas pesquisas ocorre de forma linear. A instrumentalização do Estado se constitui um ponto chave neste caso. Aqui, tem-se um Estado onde sua natureza ontológica está fincada em atingir múltiplos fins, ou seja, promovendo o “bem comum”, em Rawls, e “promovendo a paz”, em Kelsen. (FARIAS, 1999, p. 24).   Em Hegel, como observa Farias (1999, p.34) “o Estado seria o elemento determinante da sociedade como um todo. Assim, a sociedade civil seria um elemento determinado pelo Estado. [...]”. 
Farias (1999) alerta que o problema latente dos instrumentalistas e formalistas centra-se na não compreensão das especificações capitalistas do Estado. As inúmeras utopias burguesas (Farias, 1999) o localizam em distintas formas, mas todas, mantendo o formalismo. É em Marx (2010), mesmo não tendo produzido uma teoria do Estado, que encontramos as primeiras críticas profundas a visão hegeliana, lembrando que Estado não representa os interesses gerais da nação, mas antes defende os interesses da propriedade. É a partir desse referencial teórico que a complexidade e a contradição finalmente assumem posições centrais, rompendo com o formalismo.
Do Estado interventor, passando pelo Estado regulador até a forma do Estado mundializado-neoliberal, há a determinação histórica do próprio capital e da intestina tentativa estatal de superar as contradições latentes. O neoliberalismo é a mais atual cartada, e quiçá, a última, da determinação histórica estatal. Barros (2004, p. 09) nos lembra de que no “[...] final da década de 1960 e início de 1970, o capital acena com uma dupla ofensiva: o neoliberalismo político [...] e a chamada reestruturação produtiva [...]”. É assim preciso que o capital tome as rédeas de forma mais ostensiva possível.
O neoliberalismo não é um espectro que ronda o mundo, mas ele é a própria materialização do capital, que no bojo de uma crise aguda escancarada nas décadas de 1970, retorna seu caráter ontologicamente vampiresco. Os tempos de concessões cessaram. O velho pacto fordista-keynesiano, tão sólido nos anos dourados pós-Segunda Guerra Mundial, se desmanchou no ar. Se, como bem lembra Antunes (2009, p.21), “o sistema de metabolismo social do capital nasceu como resultado da divisão social que operou a subordinação estrutural do trabalho ao capital [...]”, no contexto do pacto fordista-keynesiano, com o maior valor do valor-trabalho, tinha-se esta subordinação ideologicamente dada como superada, argumento usada tanto pela direita filantrópica quanto pela esquerda estatal.   
Esta reação buscava recompor o regime como ele efetivamente é. Antunes (2009, p. 31-32) lembra que a crise do Estado keynesiano e de seu pacto com o fordismo pode ser identificada com a queda da taxa de lucro, resultado do aumento do preço da força de trabalho e do controle social da produção, dentre outras indicações.[2] Tendo assim em vista que dessa forma é inaugurado um período histórico marcado pela crise estrutural do sistema de capital (ALVES, 2011, p. 11), endossamos apontando que isso implica na própria crise estrutural da governança estatal. O neoliberalismo não surge visando diminuir o Estado, mas objetiva resgatar o caráter ontológico do Estado.
Por isso que assistiremos a uma feroz reação da civilizada burguesa dos anos 1970 para cá demostrou que a sustentabilidade do Estado só é possível com a sustentabilidade do capital, onde ambos se alimentam da insustentabilidade social, espacial, ambiental e humana. É emblemático reconhecer que os EUA, com uma população absoluta de 323.901.073, 5% da população mundial, absolvem 25% de todos os recursos energéticos do mundo. (ANTUNES, 2009). O que assistiremos não é apenas a reestruturação produtiva do capital, mas uma remodelagem na forma do ser social, com um avanço nunca visto de uma aprofundada fragmentação na no agir e no pensar.
Para exemplificar isso, Anderson (1995, p. 02) nos lembra de que


A chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo o mundo capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de crescimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as idéias neoliberais passaram a ganhar terreno. As raízes da crise, afirmavam Hayek e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento operário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais.

As políticas neoliberais abriram um novo quadro social e econômico no mundo material e imaterial dos trabalhadores. (DUMÉNIL E LÉVY, 2010), ou seja, impactaram em cheio a dimensão histórica e espacial da humanidade. As mudanças que assistiremos, em muitos casos, passivos, foram acompanhadas de um conjunto de decisões que bem diferente de serem encaminhamentos exclusivistas da política, como alude Généreux (2003)[3], também não deságua no resultado apocalíptico do horror econômico[4] de Forrester (1997). Estas decisões políticas e econômicas se situam dentro do Estado, já que “[...] o poder econômico do capital não pode existir sem o apoio da força extraeconômica; e a força extraeconômica é hoje, tal como antes, oferecida primariamente pelo Estado”. (WOOD, 2014, p. 18).
As políticas neoliberais centraram, de imediato, na diminuição do valor-trabalho.  A quimioterapia social, que de um lado, procurou curar a humanidade do caminho da servidão estatal-reguladora do keynesianismo, preservando assim o capital, deixou as reações adversas da receita médica foi um ataque frontal as conquistas que os trabalhadores obtiveram durante todo século XX. Da alcunhada servidão ao Estado, uma servidão absoluta ao mercado. O capital assim finalmente encontra a mais fértil cobertura para sua maior expansão global.
Anderson (1995) lembra que a taxa de acumulação incrementada nos países da OCDE, na década de 1960 foi de 5,5%, caindo para 3,6% na década seguinte, bem na linha do que Antunes (2009) apontava como a queda da taxa de lucro do capital. Outro elemento importante, que casado com o baixo crescimento, contribuiu para que a cartilha liberal voltasse à moda, como bem lembra Anderson (1995), foram as altas taxas de juros. Como saída para o caos gerado pela servidão moderna ao capitalismo de Estado, o governo conservador britânico contraiu


[...] a emissão monetária, elevaram as taxas de juros, baixaram drasticamente os impostos sobre os rendimentos altos, aboliram controles sobre os fluxos financeiros, criaram níveis de desemprego massivos, aplastaram greves, impuseram uma nova legislação anti-sindical e cortaram gastos sociais. [...] (ANDERSON, 1995, p. 03)

Historicamente se dar como marco inicial do neoliberalismo mundial a chegada de Ronaldo Reagan ao governo dos EUA, o ator coadjuvante de filmes de macacos (SMITH, 2001), e chegada ao governo do Reino Unido de Margareth Thatcher, a dama de ferro garota propaganda da nova fase de expansão do capital globalizado. A ortodoxia liberal cantada por Hayek (2013), em Caminhos da Servidão, encontra finalmente, como sereia, a sua territorialização. O seu culto racional da anarquia do mercado ou seu irrealizável mercado livre (MESZAROS, 2011) encontra sua realidade sem validade concreta nestes tempos, onde a anarquia do mercado mostra, a desgosto de Hayek, que a saída para a servidão do homem não se encontra no mercado, mas na ruptura com o seu metabolismo. A sua servidão ao mercado é a deterioração não só do ser social que trabalha, mas do próprio homem genérico. De fundo, a servidão ao mercado é a própria servidão ao Estado.
É sempre importante rememorar que assim como a Guerra Civil Espanhola foi laboratório do nazismo de Hitler, a América Latina das ditaduras, a exemplo do Pinochet de Chile, foi laboratório da nova oferta do capital. Como bem salienta Almeida (2009, p. 372) “no subcontinente, o Chile foi escolhido como primeiro laboratório do neoconservadorismo liberal, onde inicialmente se experimentou as teorias do proeminente ideólogo neoliberal Milton Friedman, sob as botas militares da ditadura de Augusto Pinochet, em 1973 [...]”. As experiências neoliberais tomam forma na América Latina com o Consenso de Washington, no final dos anos 1980. A tradição inaugurada pela Doutrina Monroe e o Big Stick, passando pelo TIAR, assumiu uma nova materialidade, agora mais consensual.  Como consequência,


Esse conjunto de ingredientes (introdução de reformas macroeconômicas, de fomento de déficits comerciais financiados por capitais externos – atraídos pela especulação financeira, pelas privatizações e, em menor escala, pelos investimentos – fazia parte da receita neoliberal imposta pelo Consenso de Washington, cuja decorrência imediata foi a inundação das economias periféricas pelo capital monopólico – principalmente estadunidense – a título de financiamento dos serviços da dívida e da modernização dos seus parques industriais [...]  (ALMEIDA, 2009, p.375)


Esta quimioterapia social logo aterrissaria no então chamado terceiro mundo.   Como mencionado acima, tendo como experimento na então ditadura de Pinochet, no Chile dos anos 1970, o credo liberal encontrou ressonância por estas terras de cá. Mas algo de enorme importância aconteceria na América Latina, tendo como porta estandarte o México. Em 1982 uma enorme crise atingia os mexicanos, sendo o ponto de estrangulamento a dívida externa.  O problema da dívida se agigantava na área direta de influencia estadunidense, causada precisamente por medidas abruptas do FED-EUA.
As taxas inflacionárias elevadas e o problema da dívida serão um combustível fenomenal para que no final da década de 1980 países como EUA e Canadá impusessem uma receita amarga aos países da América Latina. Reunidos em Washington, os ministros de economia das Américas, exceto Cuba, definiram assim o sonho americano. O falsário consenso definia que para a solução do problema causado pelo capital, seria necessário mais capital. Medidas como abertura comercial, privatização das estatais, redução dos gastos públicos, disciplina fiscal e reforma tributária.
A caracterização que aponta a reciprocidade mútua entre as medidas estatais neoliberais e a expansão mundial do capital é correta[5]. Dessa premissa fundante, apontam-se algumas, como (1) mundialização do capital significa a mundialização da forma estatal neoliberal e (2) a mundialização da forma estatal neoliberal, a partir do fim da ordem bipolar, terá como hiperpotência os EUA. A abertura comercial representou a flexibilização de medidas que antes protegia o capital nacional, facilitando assim que o capital internacional adentrasse nas disputas com o capital tupiniquim. Recentemente, o congresso brasileiro e o governo ilegítimo de Temer defenderam, por exemplo, abertura ao capital internacional de 100% na viação aérea brasileira.[6] A própria privatização de estatais, como das telecomunicações, representou este avanço do capital internacional, vide grandes operadoras que atuam no Brasil, como Vivo, Claro e TIM.
Ianni (2010, p.55) lembra que a expansão do capitalismo mundialmente se deu em primórdios do pós Segunda Guerra Mundial, ou seja, “[...] muitos começaram a reconhecer que o mundo estava se tornando o cenário de um vasto processo de internacionalização do capital [...]”. A então figura astronômica, agora, adquiria um significado histórico, perdendo suas características nacionais, internacionalizando-se. (IANNI, 2010)[7]. Esta territorialização do capital segue o curso natural, pois como bem lembra Fiuza (2003) “a concorrência, para Marx, é da “natureza interna do capital" [...] Além do mais, a concorrência é o combustível de sua progressiva expansão, de sua reprodução ampliada, de sua mundialização [...]”. Os capitais mais competitivos não iriam querer passar a vida no quintal de sua casa. O Estado Mundializado Neoliberal é a realização ontológica do capital.
Como afirma o mesmo Harvey (2012, p. 140),


[...] as décadas de 1970 e 1980 foram um conturbado período de reestruturação econômica e de reajustamento social e político. No espaço social criado por todas essas oscilações e incertezas, uma série de novas experiências nos domínios na organização industrial e da vida social e política começou a tomar forma. Essas experiências podem representar os primeiros ímpetos da passagem para um regime de acumulação inteiramente novo [...]

O neoliberalismo é a oferenda desejada pela forma-Estado em sua forma do Estado moderna e contemporânea. É o novo credo, lembrando a observação de Polany acerca do liberalismo. Como qualquer credo, é preciso convencer da existência de um deu ou de deuses, e para materializar esta fé, é preciso seus templos, seus oradores e sua legião de seguidores. Mesmo considerando acertada a observação de Ianni (2014) sobre os primórdios da mundialização do capital, cabe observar, como faz Anderson (2015, p. 103), que com o fim da Guerra Fria, o livre mercado ainda não era um mercado mundial.  É com a plena hegemonia política, econômica e militar dos EUA que este processo finca raízes mais claras, sistemáticas e organizadas. O maestro começou a ditar as regras com a liberdade necessária.
Lerh (2013, p. 9), aponta no prefácio da obra de Farias, O Modo Estatal Global, que “é difícil não concordar com Perry Anderson quando este afirma que o neoliberalismo tornou-se um pressuposto também da esquerda referenciada na socialdemocracia e em concepções outrora ditas marxistas [...]”.[8], o que “[...] demonstravam estas experiências era a hegemonia alcançada pelo neoliberalismo como ideologia [...]”. (ANDERSON, 1995, p. 05). Seguindo esta reflexão, Mastescelli (2003, p. 21) lembra que o capitalismo neoliberal é marcado por configurações diversas, podendo ser encontrada sua aplicabilidade nos regimes democráticos, ditatoriais, conservadores ou trabalhistas, imperialistas ou dependentes.
A dominação estatal mundial atualmente prossegue no mesmo ritual imperialista de séculos, entretanto, com certas medidas que na aparência não se configura dominação, mas que no conteúdo assume suas formas mais deletérias para países dominados. Farias (2016) observa que a dominação estatal mundial, o novo imperialismo, age seja via soft Power, seja hard Power.[9] Prova material disso é que a agenda quimioterápica neoliberal na América Latina se deu usando das formas mais diversas, em muitos casos rasgando até mesmo a legalidade ilegal do Estado (MESZAROS, 2015). Almeida (2009, p. 379-80) lembra que


Uma análise mais apurada dos processos de implementação do projeto neoliberal na América Latina mostra que este se deu pela violência institucional, tendo o Estado interferido ferozmente não só no âmbito econômico, mas também no político. Assim foi no Chile, país pioneiro na região, onde as reformas neoliberais se deram sob a sangrenta ditadura do general Augusto Pinochet, auspiciada pelas agências estatais estadunidenses; no Peru de Alberto Fujimori, no início da década de 1990, quando implantou os “ajustes estruturais” sob as botas militares, não sentindo remorsos por debelar o Congresso Nacional e o Judiciário, maculando pilares imprescindíveis ao liberalismo burguês; na Bolívia, o preço da implantação das medidas vaticinadas pelo Consenso de Washington custou a institucionalidade, quando o governo lançou mão a uma das importantes armas da ditadura, o “estado de sítio”, ressuscitada sem nenhum constrangimento, contra as manifestações da COB, a maior central de trabalhadores do país, posta na ilegalidade, tal como no processo ditatorial; no Brasil, o então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, não hesitou em apelar para o Exército na repressão à maior greve de petroleiros da história do país, em maio de 1995; no México, que não sofreu nenhum golpe militar nos moldes de seus vizinhos de continente, a ditadura perfeita467 do Partido-Estado cumpriu seu papel por meio do tradicional autoritarismo que marcou e marca a história mexicana por mais de 70 anos. 

O paradoxo resolvível que nos situamos é que a narrativa do menos estado é um mero instrumento ideológico usado pelo capital mundial para expropriar de forma totalitária toda riqueza possível, seja atualizando o novo pacto colonial, seja se apresentando como moderno. O Brasil, por exemplo, há décadas tem passado por uma reprimarização de sua economia, se constituindo mais do que nunca como um importante país agromineroexportador. O Estado brasileiro globalizado, aplicador fiel da agenda neoliberal, tem assim permitido cada vez mais a abertura do capital nacional, vide as recentes iniciativas do governo usurpador de Michel Temer.
  Diferente do discurso de “morte do Estado”[10], o que se assiste é o “[...] seu fortalecimento para atender aos reclamos da finança e de outros grandes interesses internacionais, em detrimento dos cuidados com as populações cuja vida se torna mais difícil” (SANTOS, 2004, p. 19). E neste marco, existe um paradoxo, bem assinalado por Oliveira (2006. p.13), em O Momento Lênin, quando afirma corretamente que no tempo neoliberal o que se ver é “[...] estatização dos partidos e da política, no anverso da privatização da economia e da vida [...]”.
Seguindo este curso do rio que se optou em seguir, “[...] o Estado neoliberal é deliberadamente desprovido de certas funções estatais próprias do compromisso keynesiano, mas está mais forte do que nunca e tão imperialista quanto o Estado de compromisso keynesiano [...]”. (DUMENIL E LEVY, 2010, p.231). O papel que cumpre os importantes organismos supra estatais surgidos em Bretton Woods, que mundialmente definem e redefinem o discurso e a aplicabilidade neoliberal, num diálogo na maioria das vezes harmonioso com diversos Estado-nações, confirma em que pé estamos.

Sobre o papel desses guardiões, precisamente o FMI, Harvey (2004, p. 66) lembra que “o poder do complexo Wall Street-Tesouro-FMI está, com respeito a um sistema financeiro coercitivamente imposto, instaurado em torno do chamado Consenso de Washington [...]”. Neste caso, Harvey aponta que no fundo, no coração da hegemonia neoliberal, encontra-se a hiperpotência estadunidense, como já salientamos anteriormente. A União Europeia, mesmo cumprindo o papel emergente nas determinações econômicas, está aquém da dominação econômica-militar dos EUA.
Por toda esta análise até aqui desenvolvida que se pode concluir que o erro clássico de analisar o neoliberalismo deslocado da globalização e do Estado resulta tanto em problemas metodológico, quanto por problemas ideológicos. A globalização, como apontado até aqui, é a mundialização do capital em sua forma mais agigantada, assim como a mundialização do capital das últimas décadas está implicada com a territorialização planetária da forma de Estado neoliberal.  Mas, como ainda há muito a escalar, devemos nos indagar constantemente “[...] quanto tempo pode a perversa normalidade uma ordem socioeconômica e política antagônica, com irreprimível tendência de afirmação global de seu domínio, manter sua dominação sem destruir a própria humanidade? Esse é o tamanho da montanha que devemos escalar e conquistar”. (MESZAROS, 2015, p. 35)

Referencia bibliográfico

ALMEIDA, José Rubens Mascarenhas de. Globalização: a nova retórica do velho imperialismo (Uma abordagem do imperialismo dos séculos XX/XXI).DOUTORADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS. 2009, São Paulo.

ALVES, Giovanni. Trabalho e Subjetividade. O Espírito do toyotismo na era do capitalismo manipulatório. Boitempo. 2011. São Paulo.

ANDERSON, Perry. A política externa norte americana e seus teóricos. Boitempo. 2015. São Paulo

________________. Balanço do neoliberalismo. Disponível em: < paje.fe.usp.br/~mbarbosa/cursograd/anderson.doc>. Acesso em: 23 de jun.  de 2016

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho: ensaios sobre a afirmação e negação do trabalho. Boitempo. 2009. São Paulo. 

BIHR, Alain. Da Grande noite à alternativa. O movimento operário europeu em crise. Boitempo. 2010. São Paulo.

FARIAS, Flávio de Bezerra. O Imperialismo Global. Teorias e consensos. Cortez. 2013. São Paulo.

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HARVEY, David. O Novo Imperialismo. Loyola. 2004. São Paulo.

HAYEK, F.A. O caminho da servidão. Vide Editorial.  2013. Rio de Janeiro.

IANNI, Otávio. Teorias da globalização. Civilização Brasileira. 2010. Rio de Janeiro.

MÉSZÁROS, István. Para Além do Capital. Boitempo. 2011. São Paulo

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MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Boitempo. 2010. São Paulo. 

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OLIVEIRA, Francisco de. O Momento Lênin, disponível em http://www.scielo.br/pdf/nec/n75/a03n75.pdf. Acesso em 04.06.2016

SANTOS, Milton. Por uma Outra Globalização. 11º edição.  Editora Record. 2004. Rio de Janeiro.

WOOD, Ellen Meiksins. O Império do Capital. Boitempo. 2014. São Paulo



[1] Concordamos com as diversas análises teóricas de intelectuais, que apontam o processo atual de impeachment de Dilma como um golpe. Para um aprofundamento maior na temática, indico O que é um golpe de Estado, de Bianchi, em http://blogjunho.com.br/o-que-e-um-golpe-de-estado/ e Impeachment, crise e golpe, de Coggiola, em http://marxismo21.org/wp-content/uploads/2016/06/OC-Brasil-2016.pdf.
[2] Seguindo Birh (2010, p. 69-73), pode-se considerar que esta crise se caracteriza pela (1) diminuição dos ganhos da produtividade, que teria relação com os limites técnicos e sociais do taylorismo e fordismo; (2) elevação da composição orgânica, onde os paliativos do fordismo não se efetiva mais; (3) saturação da norma social de consumo, o que em determinado momento, foi algo importantíssimo, mas que num quadro de crise se tornou insustentável e o (4) desenvolvimento do trabalho improdutivo.  

[3] Em Horror Político, Genereux afirma que “uma vez denunciado o erro da acusação contra os capitalistas aproveitadores, chegamos ao verdadeiro/falso debate sobre a extinção do trabalho, que constituiria, segundo Viviane Forreste, a explicação do escândalo da pobreza. Dizemos “verdadeiro/falso debate”, porque O Horror Econômico confunde um problema verdadeiro sobre nosso futuro e um falso diagnóstico sobre o mundo atual. O verdadeiro problema é quanto ao futuro do trabalho; o falso diagnóstico é a ausência de trabalho”. (2003, p 39).

[4] Em Horror Econômico, de Forrester, a mesma afirma que “Um desempregado hoje, não é mais objeto de uma marginalização provisória, ocasional, que atinge apenas alguns setores; agora, ele está às voltas com uma implosão geral, com um fenômeno comparável a tempestades, ciclones e tornados, que não visão ninguém particular, mas as quais ninguém pode resistir. Ele é objeto de uma lógica planetária que supõe a supressão daquilo que se chama trabalho; vale dizer, empregos”. (1997, p.11)
[5] A globalização é dessa forma a mundialização do capital, exemplo, uma cidade até então marginal pelo capital nacional e mundial, São Luís-MA, vê adentrar em seu solo, o grande capital nacional (CVRD) e o grande capital mundial (Alcoa). A mundialização do capital é a mundialização do Estado neoliberal e nada mais notório do que como a dominação estatal mundial impôs uma série de medidas, como privatização de empresas estatais, ajuste fiscal, reformas flexibilizantes, dentre outras.

[6] MP seria votada nesta terça-feira (28), mas devido à falta de consenso entre os parlamentares a votação foi adiada. Originalmente, a proposta previa a ampliação para 49% da participação de capital estrangeiro em companhias aéreas brasileiras. Durante a tramitação na Câmara os deputados retiraram esse limite, o que na prática liberaria até 100% de participação estrangeira.” Disponível em:< http://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2016/06/29/abertura-de-aviacao-ao-capital-estrangeiro-recebe-apoio-de-anac-e-empresas>. Acesso em 20 de jul. de 2016
[7] É claro que o capitalismo continua a ter bases nacionais, mas estas não são determinantes [...] (IANII, 2010, p.58)
[8] O processo iniciado nos anos 1970 precisava encontrar sua foz, independente da foz. Justo por isso que já no pós-Guerra Fria, quando emergia a ordem unipolar da hiperpotência estadunidense, assistir-se-á uma confraria mundial entre os comunistas arrependidos e os burgueses orgânicos, todos reunidos para comemorar o coroamento da nova forma Estado.  Os velhos e novos cristãos agora poderiam participar de mãos dados da oferta e da comunhão.

[9] [...] o processo de desenvolvimento neoliberal exige tanto guerras “preventive/preemptive” (Vilboux, 2007) ditas humanitárias e progressistas, com base nos “valores da democracia”, para a “fabricação do Estado”, quanto a superação do sistema westfatalino, cujas “pedras angulares”, a saber, “a soberania e o Estado-nação”, desde o fim da guerra fria, “foram eroditos e atacados no seu princípio” de sorte que os interesses estatais internos tornam-se cada vez mais um negócio importante colocado na mira dos “outros membros do sistema internacional” [...] (FARIAS, 2013, p.40)

[10] Na mesma lógica operava a retórica do fim do Estado-Nação, que ganhou corpo nos países emergentes e pobres, evidenciando a tentativa de fragilizar o poder estatal no que se referia às políticas protecionistas dessas economias. [...] (ALMEIDA, 2009, p.374-5)


Texto postado em 04 de agosto de 2016

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