terça-feira, 29 de julho de 2014

O direito “sagrado de matar” ou o direito geopolítico de matar ou dois direitos



É inteiramente ilegítimo identificar os elos judaicos com a Terra de Israel ancestral [...] com o desejo de reunir todos os judeus em um Estado territorial moderno situado na antiga Terra Santa.

Eric Hobsbawm. Nações e nacionalismo desde 1780. Paz e Terra. 2011.


Os defensores do direito dos “judeus” em ter um Estado utilizam de dois grandes equívocos já conhecidamente desmascarados: a crença de uma unidade judia secular[1] e o direito ao território palestino[2]. O primeiro resulta de uma fabricação ocorrida no final do século XIX e o segundo é consequência imediata do primeiro. E dentro desses dois equívocos, uma avalanche de desconhecimento que beira uma neurose desequilibrada, que muito bem reforçam este aparato imperialista criado em uma das mais apertadas reuniões da ONU, isso em 1948. Esta entidade tinha acabado de ser criada, como resultado das reuniões entre os líderes dos EUA, Inglaterra e URSS, ainda no curso da Segunda Guerra Mundial. Na reunião que decidira pela criação do Estado de Israel, II Assembleia Geral da ONU, o imperialismo mundial/sionismo conseguira 33 votos (o mínimo necessária era de 30 votos), onde importantes gigantes diplomáticos (Libéria e Haiti, que naquele contexto eram governadas por regimes ditatoriais pró-EUA), ao mudarem seus votos, favoreceram o sionismo.  O diplomata brasileiro Osvaldo Aranha exerceu neste ínterim um desastroso papel. Além de protelar ao máximo a reunião, pois os pró-sionismo não tinham maioria necessária para a aprovação do Estado de Israel, mostrou a grandeza da diplomacia brasileira ao realizar a reunião somente quando era conveniente para os israelense-sionistas. Este enredo inicial serve justamente para eu tentar apresentar, na ótica de quem tenta analisar a Palestina não a partir da mídia, mas a partir de quem estuda a Palestina, uma pequena reflexão sobre o conflito criado pelo imperialismo mundial e pela ONU.
Um ponto muito importante sobre a criação do Estado de Israel e que deve ser público é que muitos pensadores chamados de judeus foram arduamente contra a criação do Estado de Israel. Notoriamente, a liberal Hannah Arendt[3], brilhante em construções como A Condição Humana e a Origens do Totalitarismo, já alertava o grande risco daquela empreitada da ONU, e claramente sabia que o sionismo era também a banalização do mal. Sem dúvida, Eichmann em Jerusalém não trata apenas das atrocidades nazistas, mas do próprio Estado autoritário já gestado arbitrariamente. Se hoje fosse viva, certamente diria “Eu avisei”.
As acusações preferidas à Hannah Arendt - onde alguns setores fundamentalistas israelenses a taxava de antissemita - são as mesmas que ouvimos rotineiramente a todos que são críticos do terrorismo de Estado de Israel. E dois fatos diplomáticos recentes revelam o desprezo que o Estado de Israel tem pelo multilateralismo: (1) a posição firme do Estado turco em condenar o holocausto palestino, que teve como resposta israelense[4] a afirmativa que o governo turco era antissemita e (2) a vexatória posição da diplomacia israelense ao taxar a diplomacia brasileira de anã diplomática (a mesma que foi decisiva para criação, nos anos 1940, da aberração do Estado de Israel), quando o governo brasileiro endureceu sua posição contra a política de assentamento israelense que viola acordos internacionais. O tão desejado governo mundial de Bertrand Russell[5], apesar de sinceramente pensar que tal filósofo não vislumbraria esta caos todo, é a mão do mais forte, pois mesmo que se diga que na diplomacia oficialesca, todos são iguais, mas sabemos, a exemplo do que diria George Orwell, que alguns são mais iguais que outros. E sabemos, a ONU[6], por exemplo, não é democrática nem mesmo formalmente. 
E o que é este sionismo? Teodoro Herzl, de seu confortável habitat na Europa no final do século XIX, quando proferia “judeus de todo mundo, uni-vos”[7], certamente esperava que o “judeu’ que ele descrevia existisse ainda. Esta forma de ver os judeus, criada pelo sionismo, era estranho aos olhos de pessoas como Albert Einstein[8], já que considerava que estes tais “judeus” estavam desenraizados e internacionalmente incluídos. Edgar Morin[9], ao questionar a marca dominadora e colonizadora de Israel, vai ser atacado de antissemita. Este “judeu”  atacado de antissemita sempre via o judeu moderno como uma construção do sionismo.
E como o sionismo se tornou força? Quando surgiu o sionismo na Europa, este movimento conseguiu aproximar um setor minoritário dos chamados “filhos de David”, pois a maior parte desses estava dispersa ou ligada a movimentos como o bundismo[10], movimento que era muito forte na Europa pré-Primeira Guerra Mundial. Tal movimento se negava a se aliar aos países imperialistas, por isso, muitos “judeus” eram tão massacrados na Rússia czarista, o que vai de alguma forma contribuir para uma enorme migração de judeus que se dirigiam principalmente para os EUA e Inglaterra.  As perseguições aos “judeus” na Rússia do século XIX tem mais relação com suas posições políticas de ser contra o feudalismo, ao czarismo e a opressão existente ali do que com a roupagem religiosa ou outra coisa que se queira dizer. O conflito não é religioso. É geopolítico, ou alguém conhece alguma faixa de Gaza em São Paulo, Buenos Aires ou em Santiago do Chile envolvendo palestinos e israelenses?
Uma coisa que notoriamente se  nega é que a própria criação do Estado de Israel, claramente defendida pelo sionismo já no final do século XIX, não tinha inicialmente a ideia territorial bem definida, pois de Uganda à Argentina, tudo poderia. Sim! O sionismo levantou a possibilidade do Estado de Israel ser construído bem aqui, no nosso país vizinho. E como o sionismo ganhou força? Qual a grande virada? A Declaração Balfour, assinada em 02 de novembro de 1917,  selava a eterna aliança do futuro Estado de Israel com o imperialismo mundial (naquele contexto, a Inglaterra tinha o protetorado da Palestina após a ruína do Império Turco-Otomano e recebera o nobre “convite” das Ligas das Nações para “proteger” aquela região). A Aliança de Casamento, como ficara conhecida tal declaração, foi sem dúvida o primeiro passo para que o imperialismo mundial fincasse os pés na região que já se apresentava como a menina dos olhos dos produtores de mercadoria mundial. Por que essa importância? Petróleo! Petróleo! Petróleo! Em um momento de reorganização árabe, com o pan-arabismo ganhando força, era preciso garantir um aliado estratégico. Logo, diferente da tese bem comportada, o Estado de Israel é fruto do imperialismo em duas situações: (a) a Segunda Guerra em si e (b) a geopolítica do pós-guerra. Não só de golpe de Estado formal e impondo ditadura o imperialismo vive. Era preciso construir um modelo de Estado, desenvolvido, com tecnologias avançadas e democracia liberal formal (mais avançada que o próprio EUA).
O jogo geopolítico do Imperialismo (que não ficara como resto mortal nos séculos XIX e XX mas está tão e mais presente no século XXI) não age com uma metodologia só. É preciso unir a diplomacia com o porrete, ou em outros casos, agir com a diplomacia do porrete. Cada país imperialista tem seu Big Stick, não só os EUA. Então se torna muito curioso duas questões: (1) em Israel existe democracia e (2)  há desenvolvimento humano em Israel. Sobre o primeiro ponto, cabe ressaltar que o direito à propriedade é constitucionalmente garantido aos israelenses e não a qualquer um, logo, o direito de posse de um palestino pode ser atacado se existir uma necessidade de interesse da nação. A expropriação de terras palestinas não é uma exceção, mas uma regra. Ainda sobre o aspecto democrático de Israel, cabe lembrar algo que está dentro do ABCD da geopolítica internacional, que é o fato de que a decisão de manter a democracia formal em Israel e manter Ditaduras de Omã, Jordânia, Egito, Emirados Árabes e Arábia Saudita está mais ligada a questões geopolíticas do que razões culturais in natura. Tanto é verdade que quando a Irmandade Muçulmana ganhou o pleito formal no Egito, em 2012, os militares pró-Israel deram um Golpe de Estado. E Israel parabenizou. E os EUA e a Inglaterra entraram em delírios. E a ONU se calou. Se algum momento, por força da circunstância, o sionismo for derrotado nas urnas, e seu poder político for minado, a força pública agirá com mãos de ferro, rasgando qualquer sentido democrático naquelas terras. 
Sobre o segundo ponto, é curioso a afirmativa de alguns que relacionam o desenvolvimento humano ao fato exclusivamente interno ao Estado de Israel. Se for verdade que os palestinos vivem em melhores condições dentro do Estado de Israel, isso se deve a alguns fatos que cabem ser mencionados: (a) a renda bruta e (b) desenvolvimento geopolítico desigual e combinado. Sabemos que a (a) renda bruta circula muito mais em Israel, logo, mesmo com a absurda desigualdade entre “judeus” e palestinos, estes últimos acabam possuindo uma renda maior do que seus irmãos que vivem em Gaza ou na Cisjordânia. Mas isso nada tem relação com “bondade”, mas por questões econômicas. É mais fácil um pobre ter uma renda maior nos EUA do que na Guatemala, e isso se deve ao processo econômico de produção e circulação maior em um país e em outro não. Dessa forma, temos que analisar o que aqui afirmamos de (b) desenvolvimento geopolítico desigual e combinado. Isso nos ajudaria a entender que se existe um Israel com o quadro atual e outros países árabes em situações piores não é mérito exclusivo dos israelenses, mas de que geopoliticamente era preciso que assim fosse. 
A grande questão que se coloca é e se o Oriente Médio fosse escasso não só de recursos hídricos, quanto também de Petróleo, será que a ONU, EUA e Inglaterra teriam defendido tão arduamente a construção do Estado de Israel?Na democracia desenvolvida de Israel, quando as tropas desse Estado ocupara a Cisjordânia, o lado humanitário dos “judeus” se mostrou presente: enquanto os judeus ocupantes tinham direito a 350 litros per capita diários de água, os palestinos tinham direito a 60 litros só. Certamente os palestinos não são muito fã de água.
É uma grande mentira afirmar que Israel defende o direito dos palestinos em terem seu próprio Estado. Nenhum homicida – pelo menos a maioria – não publica em sua rede social algo que o incrimine. Quem vai cometer um assassinato não publica em nenhum jornal diário: “vou matar às 12h45min aquele homem”. Logo, o que é afirmado em público não é o mesmo que é discutido em segredo. Há um nítido interesse israelense de expurgar os palestinos daquela região. Quando surgiu o Estado de Israel, sendo a população da Palestina constituída de 30% de judeus e 70% de palestinos, o imperialismo além de construir o Estado Israelense em terras palestinas sem ouvir o mundo árabe, fez a justa divisão de colocar nas mãos dos israelenses 55% do território e 45% nas mãos dos palestinos. Imediatamente, no território dito judeu, mais de 400 vilas  palestinas foram rifadas dos mapas  palestina (80% da população que ali vivia teve que migrar). Os livros de história e de geografia[11] foram reescritos para que as futuras gerações jamais soubessem que ali vivia uma população roubada e expropriada. Uma ação orquestrada pelos principais partidos, seja o Partido Trabalhista, seja Kadima, seja Likud, seja Beitenu.
Por fim, quero fazer uma ressalva importante. Apoiar os Palestinos não implica apoiar o tal terrorismo do Hamas. Considero o grupo Hamas uma organização controvérsia, pois cumpre um importante papel em defesa do direito dos Palestinos sobreviverem. O seu programa é constituído de elementos típicos da interpretação ortodoxa de seu livro sagrado, logo, a visão que eles têm de grupos como os LGBTT não é diferente da visão das seitas judias (que são inúmeras e só aumenta em Israel), nem diferente da visão das seitas evangélicas e católicas (estaríamos falando do Brasil?).  E em falar de interpretação ortodoxa de livro sagrado, existiria algo mais ortodoxo do que esta tal herança divina daquela terra, que deve ser povoada pelos filhos de Israel? Sholomo Sand, israelense e professor de HISTÓRIA na Universidade de Tel Aviv já alertava em seus dois brilhantes livros (A Invenção de Israel e A Invenção do Povo Judeu), que a fabricação do judeu moderno, algo que Eric Hobsbawm[12] já havia denunciado em Nações e Nacionalismo, foi algo meramente ideológico, que muito bem cumpriu um exemplar papel.


CLÁUDIO ANSELMO DE SOUZA MENDONÇA
                                                                  Texto publicado em 29 de julho de 2014




[1] SAND, Shlomo. A Invenção do Povo Judeu. Benvirá. 2011. São Paulo

[2] SAND, Shlomo. A Invenção da Terra de Israel. Benvirá. 2014. São Paulo.

[3] ARENDT, Hannah Arendt.  Eichmann Em Jerusalém. Companhia das Letras. 2013. Rio de Janeiro.


[4] A deputada israelense Ayelet Shaked, do partido de extrema-direita fascista Lar Judeu, acusara o governo turco de antissemitismo. A mesma considera que todas as mães palestinas devem ser eliminadas, mortas. Parece que o Estado israelense aprendera muito bem como realizar uma limpeza étnica.

[5] RUSSELL, Bertrand. A Civilização Ocidental in O Elogio ao Ócio. Sextante. 2002. Rio de Janeiro.

[6] Para exemplificar isso, bastar analisarmos dois casos recentes: (1) A chacina na Síria patrocinada pelo Estado sírio e (2) A chacina no Egito patrocinado pelo Estado egípcio. De um lado, a Síria, recebe proteção da Rússia; do outro lado, o Egito recebe proteção dos EUA. Estes dois países, junto com o China, Inglaterra e França possuem assento definitivo no Conselho de Segurança da ONU e possuem poder de veto.

[7] Karl Marx e Friedrich Engels, nos finalmente do Manifesto Comunista, conclama os proletários do mundo a se unir. A frase original seria “Proletários de todo mundo. Uni-vos”. Utilizo a expressão parafraseada, não em desprezo ao termo original, pois este se basea em uma materialidade real e objetiva, já na frase parafraseada, Herz se baseava em um desejo surgido de sua mente, pois o “judeu” que ele desenhava não existia mais. Será produzido no século XX. 

[8]. Albert Einstein, equivocadamente, apoiara a criação do Estado de Israel, apesar de, em seguida, de forma acertada, se negar a ser presidente daquele país, após convide do sionismo.

[9] MORIN, Edgar. O Mundo Moderno e a Questão Judaica. Bertrand Brasil. 2007. Rio de Janeiro.

[10]  Movimento com importante peso em países como a Rússia. Este movimento reunia “judeus” com uma orientação mais internacionalista, e não nacionalista. Em: WEIL, Josef. O Oriente Médio na perspectiva marxista. São Paulo. José Luís e Rosa Sundermann, 2007. (série coleção 10, nº 5)

[11] É muito conhecida a ação de Stalin em reescrever os livros de história, por exemplo, para que lideres bolcheviques críticos de seus métodos democráticos fossem rifados, esquecidos. Trotski nunca existia para a literatura russa estalinista.

[12] Nações e Nacionalismo. Desde 1780. Paz e Terra. 2011. São Paulo

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