Nasceste?
Sofrerás! Isto poderia acarretar interpretações das mais estranhas, tantas inclusive
aparentemente (ou realmente) equivocadas. O sofrimento neste caso é algo
naturalmente existente, mas sua externação mais aguda, crônica e perversa soa
como expressão direta da não-vida ou da vida em frangalhos, despida do prazer,
do gozo. A vida enclausurada implica na negação do dilema, da incerteza, da
certeza. Viver e não existir parece uma
implicação direta de um mundo de relações estranhadas, coisificadas e
reificadas. De um mundo dominado por uma
objetividade fantasmagórica.(LUKACS, 2012). De um mundo sem imaginação
criativa. Justamente ela, a imaginação, que
não admitia limites, agora só se lhe permite atuar segundo as leis de uma
utilidade arbitrária. (BRETON, 1924). Expressamente nos encontramos caído.
Em
muitos momentos de nossos passos somos submetidos a processos de degradação
profunda. A perpetuação crônica do sofrimento é um sintoma desses tempos de
flexibilidade rígida ou da rigidez flexível. O tempo encurtado pela rotatividade
acelerada enraíza nos corações empobrecidos uma dura sina. Como buraco negro,
que não permite nem partículas quase indecifráveis escaparem, puxa para dentro
de si tudo, sem permissão ou autorização. Nada escapa. A cidade é de certo um buraco
negro. Ela em si é de certa forma um laboratório de patologias, de psicopatias
e de descompassos emocionais que acarretam a avalanche de milhares de
indivíduos uma vida encurtada, mesmo que com décadas biologicamente vividas. Um
ambiente que sintetiza muito desse tempo. Um ambiente que tudo traz para si. Um
ambiente que tudo atrai.
A
cidade é um condomínio de falsificações. Como laboratório eficiente do
sofrimento originalmente externado, ela como fiel filha do mundo apequenado e
reificado acaba por fazer do sofrimento
uma sina beatificada. Em uma dimensão insustentável, ela se constitui a
petrificação de uma vida existencial não efetivada. Por isso, acreditamos no prolongamento
da vida, sem perceber que a imortalidade seria um castigo maior. Desejamos
resgatar algo impossível de retornar, pelo menos até o cotidiano momento nada
se pode desconsiderar isso que se fala. A vida nestas conurbações e megalópoles
são carnificinas dos sonhos e dos prazeres emancipatórios. Talvez por pensar
que mais-vida seria mais-tempo para usufruir da objetividade
da subjetividade taciturna.
É bem
verdade que todos os objetos do nosso
cotidiano, incluindo os mais simples e habituais, são, por assim dizer,
imaginação cristalizada. (VIGOTSKI, 2014, p. 04). Justamente por isso é
apropriado apontar a vida como ontologicamente sinestésica. Lógico que quando
mais experiências sensoriais se têm mais se é possível se apropriar de objetos
e sentidos, todavia em geral, todas as vidas em escalas diferentes têm este
potencial sinestésico. Nela, emanam os mais diversos sentidos e num emaranhado
estupidamente engrandecido, assombra nossos passados, presentes e futuros. A
vida, um mero artificio biológico, pode ser enormemente bem vivido, mas se
submetida às mediações sociais não-criativas, acaba por sufocar qualquer
perspectiva emancipatória que rompa com o imediatismo, com a posse, com o
controle, com o domínio. A existência, por outro lado, é a externação da vida,
é sua festividade, a comemoração, é a explosão. É a permanência na terra sem
que deixe de sonhar nas nuvens e sem que das nuvens se sinta obrigado a chegar
aos céus.
Este
mero artifício biológico não se faz em si e nem para si. Ela pode, entretanto,
ser para determinado indivíduo, uma vida cheia de sentido, mesmo que tais
sentidos sejam essencialmente reprodução automática de um mundo frio, egoísta e
prepotente. Ali, o sofrimento se torna ainda mais perigoso, pois atolado em uma
ficção, sua vida acaba se constituindo num poço de espetacularização, com a
mais bela forma, o mais estragado conteúdo. Para um mundo dominado pelo
pensamento instrumentalista, matemático e administrativo, não há espaço para os
prazeres coletivos. Justamente por isso ainda no século XVIII, Babeuf, em seu Manifesto dos Iguais, alertava que os prazeres individuais, os prazeres solitários, as comodidades
pessoais, serão motivo de grande pesar para os indivíduos que sempre se
caracterizaram pela sua indiferença ante os sofrimentos do próximo.
Mas,
pensemos agora em como certas dores ou sofrimentos aparentemente biológicos podem ser possibilidades para mais dores
ou mais alegrias. O grito da criança e a dor das contrações da mulher não
deixam de ser sofrimento. De certo que tal sofrimento está rodeado de uma
esperança que o ato de nascer pode ou não gerar. Da dor mais desproporcional,
surge possibilidade criativa. Para uma criança, inevitavelmente, ao ser expulsa
do ambiente outrora confortável, jogada à temperatura ambiente, sem mediações
ou apresentações, não é gozo que ela sente, ao contrário. Para a mãe, mesmo engolida
pela mais violenta ideologia da maternidade e do destino manifesto da mulher em ser mãe, é inevitável a dor. Entretanto,
numa sociedade cravada até a medula pelo machismo, pela divisão social familiar
desigual e pela externação do homem-espaço público e internalização da
mulher-espaço privado, a exteriorização do sofrimento acaba sendo uma marca
quase constante nas mulheres. A
hegemonia machista sempre buscou construir um imaginário do parto como sendo um
ato de amor, mas isso é falacioso, pois o amor é uma construção histórica, não
algo a priori. Romantizemos algo, mas
não a totalidade das coisas do reino dos humanos.
A
vida é destituída de qualquer possibilidade de anulação do sofrimento. Até
mesmo em um metabolismo social rompido com a sociedade reificada, o sofrimento,
indiscutivelmente se fará presente, pois não domamos - nunca domaremos - as
forças totais da natureza. Todavia, é de enorme importância o entendimento que
pela perspectiva emancipatória, o sofrimento é uma desconstrução. Ela não é um
ato enrijecido. E muitos buscam em nome de uma naturalização absoluta do
sofrimento, sepultar qualquer movimento contrário ao regime da mercadoria. Pela
ótica do mercado, por exemplo, se combate o vazio da existência com mais capitalismo. Pela ótica de vários mercadores da fé, a
destituição de sentido na terra é a expressão da gratuidade de acesso a uma
vida cheia de sentido no céu. Por isso, Rosa Luxemburgo alertava que o clero, falsificando o primitivo ensinamento
do Cristianismo que tinha por objetivo a felicidade terrena dos humildes, tenta
hoje persuadir trabalhadores de que o sofrimento e a degradação que suportam
não provêm duma estrutura social defeituosa, mas sim do céu, da vontade da ‘Providência’. (LUXEMBURGO, IV PARTE,13)
Dessa
ficção que muitos se submetem, dos diversos espectros ideológicos, surgem
mediações, metafísicas e científicas, de alguma forma alienante, que empurram
para um lugar distante do sujeito qualquer possibilidade de compreender
efetivamente o sofrimento. Seja pela tentativa frustrada de impedir o
sofrimento, seja drenando o sofrimento para experiências sobrenaturais, acabam
por se tornarem similares na medida em que impede a real compreensão de que não
se vive sem sofrimento. Para os que clamam por felicidade na terra sem romper
com as teias ideológicas do mundo das fábulas e mitos seculares, a ciência, o
mercado, o conhecimento e a razão se tornam escudos que camuflam de certa
medida o vazio. Já aqueles que almejam um lugar no paraíso, o maná, a gênese, a
pedra sagrada, os mandamentos, a crucificação e a ressurreição se tornam
amuletos de uma certeza incerta. No fim, o sofrimento para os religiosos
ortodoxos não é dor, mas alívio. Somos como um jogueto nas mãos de Deus, visto
que ele determina sofrimento a alguns e a outros não, mesmo que para isso os
religiosos tenham que ter criado a ideologia do livre arbítrio.
É
comum, então, ouvir a seguinte pergunta: Quem
gostaria de viver sem sofrer? Talvez nós pudéssemos arriscar em dizer que
todos os viventes desse ecúmeno espaço jamais quereriam sofrer. Optariam em
jamais ter que chorar pela dor, a mais terrível dor, a dor da perda de um ente
querido, da pessoa amada. O próprio Drummond, em Viver Dói, dizia a dor é inevitável. O sofrimento é opcional,
apesar de ser também inevitável o próprio sofrimento em sua dimensão endógena. Certamente
optaríamos em apenas contemplar a panapanã
de borboletas, as delícias de um ardente sexo ou as delicadezas pequenas da
vida. Toda dor gera sofrimento. Suas diferenças são pequenas diante de sua complementariedade
fundante. O sofrimento é uma certeza, assim como a morte, então por que ainda
teimamos em artificialmente nos apresentar como garotas e garotos de programas de auditórios, sempre com os dentes
a mostra, como se a vida fosse isso? A espetacularização da vida seria uma
razoável afirmativa.
O caminho
determinado apresentado nas conjurações gramaticais desse tempo imperdível afirma
que a felicidade se compra. Os maus-caracteres são os oradores ardentes de um
mundo decadente, de sonhos vazios e de uma vida estrangulada. O estranhamento é a mola mestre da máquina
que conduz a humanidade a um total desconhecimento do ser genérico, do ser
particular. Não sabem o que é ser, nem sabem o que é não-ser. É anulado
qualquer perspectiva de apreender algo fundamental que é repulsar o ser
particular do capital como ser genérico. O fazer de uma forma societal
particular como expressão a priori parece
uma jogada de mestre. Os gostos e formas de uma classe como sendo natural a
toda humanidade.
A destrutividade da Gaia é a destruição da
sensatez. O imperativo da mentira, das fraseologias estúpidas, deixam bêbados
os mortais. Os embriagados pelo metabolismo do espetáculo se jogam como se
estivessem no altar, declamando sua religação
com algo esquecido. Restabelecem todo dia até mesmo suas derrotas,
apontando como saída os caminhos
imaginários de uma vida que jamais terão. Cantam seus cerimoniais
acreditando fielmente que encontrarão o caminho da felicidade através do Caminho da felicidade. Enfim, nem o
alfa, nem o ômega da vida se conhecem em plenitude. Estamos fadados, neste
mundo dominado pelo reino da necessidade,
ao imperativo do reino da necessidade, da
heteronímia, da separação arbitrária,
da divisão de classe. Não há conciliação possível entre o reino dos que mandam e o reino
dos que não mandam.
A
vida não é o ato final acabado, mas o caminho cheio de meandros. O pensamento
equiparável hipérbole aponta de forma cruel um lugar desconhecido e esquecido
aos insignificantes. Os meandros dos derrotados num mundo de uma fantasia não
criativa, não emancipatória e desestimulante de qualquer sinal de potencial
humanizado é bem mais árduo. Submetidos aos prazeres passivos ou ócios subsidiados (BLOCH, 2006), são transformados em bestialização
de um mundo condicionado. Um mundo que arranca de nós qualquer possibilidade
avançada de sairmos do metabolismo austero, frio e demagógico. Um mundo
eufemístico.
Sentimos
vontade de gritar, todavia miamos. Desejamos amar, entretanto nos entregamos
aos contratos cartoriais ou religiosos. Afirmamos que queremos liberdade, mas
reiteramos de forma bruta as ideologias que nos colocam heroicamente de joelhos
perante a necessidade do mundo do
trabalho ou cedemos nossa liberdade aos contratualistas. É certo que a vontade não pode ser exterminada.
Ela não pode ser apressada. A vida do outro sempre será do outro. Não há
possibilidade de acreditarmos que podemos apontar fidelissimamente o que sente
o outro. Talvez os profetas dos céus arrogantemente pensem assim. Trotski, em
um tempo que era perseguido ardorosamente pelo stalinismo, respondia que a vida é bela. No fundo, não era um
grito para fora, mas para si. Uma tentativa de encontrar força no momento da
mais degradante situação. Para um tempo de tamanha putrefação social, política
e existencial, não há algo mais provocador que isso.
E sobre
o amor? Bem, as frases de Jesus soam estranhamente provocativas. É bem verdade
que a afirmativa que todos os homens são
filhos de Deus, como bem lembra Konder (2009), possibilitou algo de
progressivo avanço, pois rompia com a tacanhice
do judaísmo, mas sabemos que no mundo real, alguns até são, mas outros, a
maioria, não. O clamor das bem
aventuranças não é uma declaração de ação, mas uma contemplação de um
resultado, de um mundo liberto dos grilhões da maior violência. No mundo dos
grilhões, o combate com chibatas não pode ser desprezado. Jesus Nazareno já
mais admitiria os mercadores de fé de nossos tempos. Atualmente, os adoradores da ovelha de ouro reúnem uma
legião absurdamente. A crítica correta à violência não pode ser a crítica cega
à violência. O amor em muitos casos é a violência nua e crua.
Saramago
dizia que “a Bíblia [é um] manual de maus
costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. É
também, para a maior parte dos cristãos, o refúgio, o acalanto, o frescor, o
chamado. Jamais poderemos encontrar uma aproximação de respostas para o que de
fato é o sofrimento caso não busquemos compreender os acontecimentos que
envolvem as coisas humanas, do ser social. É tão pertinente aquilo que Lukács
(2013, p.41) observa ao apontar que qualquer
estágio do ser, no seu conjunto e nos seus detalhes, tem caráter complexo. Na
esteira dessa perspectiva que apontamos que é ilusório buscar respostas fora da
comunidade dos humanos e sem perceber toda sua complexidade.
O
amor não pode ser simulacro daquilo desenhado por não-humanos. Pelo contrário,
aprofundaremos nossas incertezas, nos deixando refém de um deus perverso,
vingativo. O amor bíblico é um amor interessado. Um amor atrelado a uma
recompensa. Um amor atribuído a si desde que encontre nestes atos algo maior,
mesmo que se tenha a severa observação de Jesus em relação ao que se faz
perante a doação. A salvação é uma sinalização da coroação, mesmo sem aparente
intensão, de um amor oportunista. Parece que amamos apenas pensando numa
recompensa. É preciso amar desinteressadamente. Talvez, por receio de lidar com
o sofrimento, refugiamos em formas de amar caducas, vazias e possessivas. São
pontes para barbáries.
Existir
não é necessariamente apenas sofrer. Não há duvida em relação a isso e já
deixamos expressamente dito aqui. Nem necessariamente só amar ou só desamar. O colírio que liberta os olhos do incomodo é
aquele que possibilita de alguma forma adentrarmos no paraíso proibido e
enxergamos uma perspectiva de mundo outro. Rompendo com o medo do pecado, do
inferno, nos jogamos as experiências que podem nos apresentar expressões do
amor, do ser, da existência adormecida. Um potencial criativo que nos ajude a
lidar com o sofrimento de uma forma nunca vista. A alegria de ser, seja
coletivamente ou isoladamente, desnuda temporariamente teses absolutas sobre o
sofrimento e alegria.
Fomos
expulsos do ventre de nossas queridas mães. Fomos jogados sem a nossa vontade
no olho do furacão. Os insensíveis preferiram o gelo das relações. Os
hipersensíveis preferiram apenas chorar e se afogar no sofrimento. Os
indiferentes, à demência social da covardia e do medo. A legião de imbecis prefere ficar rosnando como cães raivosos nas
redes sociais. Nós sabemos bem o que geram estes atos. Temos plena compreensão
do risco que corremos. Nós, que suamos para produzir a riqueza social, somos
empurrados à disputa mais feroz pela sobrevivência. Aguçamos nosso sofrimento
ou transformamos nossos momentos de alegrias em futilidades, em organicidades,
em rotinas, em tempos fechados, horários, términos (antes mesmo de termos
encontrados)
Como
entender então que diante de uma multidão muitos se sintam tão só e,
desgraçadamente, aparentam gostar disso? Evitando o desconhecido, o estranho, o
não compreendido, esquece-se a possibilidade da força destrutiva e construtiva
do novo. A preferencia pelo habitual, o comum, o factual, torna a vida um mero
personagem coadjuvante, sem importância, sem protagonismo. Até no ato de sofrer
não podemos deixar para o outro aquilo que é essencialmente seu. Quem só sofre
por causa do sofrimento do outro não sofre em sua totalidade, pois o outro é
individual, é parte dele. Não há como compartilhar a amplitude desse
sofrimento, mas também se enclausurar em sua vida, sem sentir a dor do outro é
terrivelmente repulsiva.
Até
aqui já afirmamos que viver de fato não é existir. Drummond, em uma poesia que
sintetizava muito de sua dor e esperança, dizia não serei o cantor de uma
mulher, de uma história, não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista
da janela, não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida, não fugirei
para as ilhas nem serei raptado por serafins. O tempo é a minha matéria, do
tempo presente, os homens presentes, a vida presente. A vida é um desafia que a existência
espera. É antítese dos ventos. A hipérbole dos sentimentos.
Teu
grito pouco foi ouvido. Nem poderia meu caro poeta. São tempos enigmáticos.
Odeiam os poetas. “Morte a vós”. Há uma impossibilidade endógena de alegrar-se
com tamanha cegueira. Minha alegria do momento não é uma sentença final, mas
também não é um sepultamento das possibilidades de um reencontro entre o
esquecido e o achado. Um reencontro entre nós, como humanos. Um encontro entre
humanos externados da então relação de pessoas como coisas. Um reencontro entre
a fuga e a permanência. A anatomia social de homens e mulheres incompletos
resulta num sofrimento que na aparência se coloca como absoluto, mas na
essência é relativo.
Quando
crescemos pensamos sinceramente no que iremos ser. E a disputa de projetos não
é adocicada como os romances do pai de Iracema e do Guarani. Há, obviamente, o
pensamento decadentista que tão se é glorificado. É um desses deuses sem templo
que são coroados todo dia. E, arrolados pelos manuais jurídicos, pelas
contabilidades gerais, pelas etnologias geniais ou as anatomias medicinais, nem
pensamos que a vida é algo muito além de isso tudo. Submetemos todas as nossas
potencialidades, aqui, nestas sociedades, ao curral social. Assistimos a uma
morte declarada de nossos mais doces sentimentos. Mas isto não é um livre
arbítrio, não é algo tomado conscientemente por nós meros mortais. O livre
arbítrio é tão totalitário como o totalitarismo burocrático de sermos meros
reflexos atomizados do meio social. Como antes já afirmara, o livre arbítrio é uma ficção. É uma
ideologia de religiosos que pensam ter a patente das fés.
Pensemos
que quando mais conhecemos as pessoas, mais estamos fadados a sofrer. É
verdade. Imaginarmos que esta imensidão de pessoas que amamos partirá. Que
teremos que está ali, perante pessoas queridas frias, sem movimentos.
Eternamente parados. Ah, mas até lá, não se poderia apenas isso esperar. Seria
irresponsável por nossa parte ficar pensando apenas nestes momentos. Ora, assim
como nasceste, sofrerás, logo se tu conheceres, tu sofrerás também. A
despedida, o adeus etc. são momentos paradoxais. A morte biológica não é nossa
dor mais profunda, por mais que o funeral seja um martírio necessário e
fundamental. Todos nós precisamos passar por lutos.
Precisamos
extrair das pedras sentido. Lembro uma frase dos tempos de adolescência que vi
em reportagens sobre o Maio de 68. Em
muros de Paris se escrevia debaixo dos
paralelepípedos existe uma praia. A existência nossa, mesmo diante da
impossibilidade forma da dor, há a possibilidade real do não sofrimento crônico
fruto direto de um mundo subjetivo e objetivamente frio, mesquinho, egoísta e
antipoético. Abrir-se ao mundo, ao desconhecido, através de uma ampliação
hipérbole, é sem dúvida nossa tarefa. Se a vida é este mar aberto que pode ou
não nos levar a existência plena, ela é apenas promessa. Podemos fugir das
ondas, ser levados pelas ondas ou desafiar as ondas com a dose de sofrimento
necessária, sem expropriar de nós o princípio
esperança. E como comecei com Breton (1924), finalizo com seu Manifesto Surrealista, quando lembra que
só a imaginação me dá contas do que pode
ser, e é bastante para suspender por um instante a interdição terrível; é
bastante também para que eu me entregue a ela, sem receio de me enganar.