sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Diálogos com Brecht ou horror ao horror desses tempos de horror






Aquele que amo. Disse-me que precisa de mim. Por isso cuido de mim. Olho meu caminho. E receio ser morta. Por uma só gota de chuva.
Bertolt Brecht

Tempos doídos estes. Sei que os ventos da esperança sacodem as poeiras impregnadas nas nossas surradas bandeiras, entretanto, é preciso enxergar os ventos carregados de fuligens que sujam nossas vistas. Sinto que há terrível pesadelo, uma constância, que bem diferente de ser uma exceção, é uma deterioradora regra. Perceber, desabrochar-se para este mundo, descobrir que a sua história é marcada pelo sangue, é extremamente arriscado. Nestes dias de “arrastão”, de “estudante da USP presa baseada em lei retrógrada dos trogloditas militares”, de “chacina de prisioneiros”, lembrei os versos de Bertolt Brecht. Não mentirei. Ao me deparar com um livro tão almejado desse homem, que aprendi a amar, me vi rodeado de inquietações, provocações e desnudes. De certezas também,  de convicções e bem apresentável. Cedo aprendi a amar Brecht, pois nele via a dureza da política, a delicadeza dos versos e a sinceridade de um mundo da insinceridade. Digo-vos, sem meias palavras, que não sei viver sem os espinhos e as pétalas. 

É certo que o vento que me move não é certamente o mesmo que move tantos que leem os informáticos que vejo nos emissários diários... E sinceramente, perdão se soar arrogância, petulância ou desprezo, mas no fundo, sinto-me distante de muitos de vós. Queria loucamente encarnar-me em cada entranha, frutificando-nos juntos. Talvez nem seja culpa de vossas almas que se acostumaram a observar o vento desabar casas, casas se erguerem, novos ventos repetirem o mesmo processo e subitamente se assiste a uma nova cena da teledramaturgia brasileira. Brecht nos dizia que a árvore que não dá frutos. É xingada de estéril. Quem examina o solo? O galho que quebra. É xingado de podre, mas não havia neve sobre ele? Eu me enfio no solo, seja argiloso, humoso, calcário, e tantos outros que aprendi nas enfadonhas aulas de geografia, naqueles ambientes carregados de estrelismo e prepotência e de uma certeza doentia de que lá estão os salvos.  

Saiba que aqui, nem me preocupa regras, normas, uma sina que carrego como penitência pelos meus pecados mundanos. Não me importa regência, nem concordância... o que importa é meu coração, a pulsão, a anatomia louca de Maiakoviski. Neste bomba humana cheia de pericárdio, bombeio muito mais de sangue oxigenado. Há uma monstruosidade chamada inquietação. Nele há um desgraçado turbilhão que nunca me deixou em paz. Mas como eu sentirei paz se a paz é apenas uma aparência ou ela, assim como a felicidade de Tom e Vinícius, tem fim? Em mim há amor, mas há ódio, dialeticamente envolvidos em cenas reais da vida carnal. Há ternura, mas há dureza. Por isso amo-te também Che, pois soube entregar-se, se é que não me interessa aqui, neste momento, do arcabouço teórico morenista. Entregar-se é algo quase divino. Arendt estava coberta de razão quando dizia que quem ingressasse no domínio da política deveria está disposto a arriscar a própria vida. Como não me lembrar de ti, Rosa Vermelha, e daqueles versos de Epitáfio 1919, quando aquele maldito poeta Brecht expressou aquelas poéticas rodeadas de dor, choro, angustia. Como esquecer as tantas Margaridas, que como a Alves, sucumbiram diante de um mundo que odeia quem sonha, odeia mais ainda mulheres que ousam sonhar. Talvez tivesse nascido mulher. Sinto-as tão em mim. Somente vocês sentem tanto assim. Mas sou solidário a tudo, saibam. Não me acusem que querer roubar protagonismos. Tenham piedade de minha pele nordestina. 

Nestes tempos doídos, acabo por chorar muito. Sempre chorei. Pelos amores não efetivados. Pelas paixões não conquistadas. Pelas pobre almas que me amaram e que não soube amar a altura. Por quem abandonei, deixei, nem liguei. Pelos amigos desperdiçados. Pelos tempos passados. Pelo pai que se foi. Pelos sonhos frustrados de irmãos, amigos... Pelo medo do que virá para minhas crianças. Chorei ouvindo, escrevendo, cedendo. E sei que meu choro não enche um copo. Há muito choro calado, silenciado. Eu, desgraçadamente, ainda tenho tempo de/para chorar. E quem nem isso têm? E quem nem tem o direito natural de chorar, digam-me? Terá direito de chorar os Amarildos? E quem nem tem lágrimas para num momento, algum sei lá, poder despejar? E a Cláudia, ousaria ainda chorar?

Brecht falava que às vezes o céu desmorona e as estrelas caem sobre a terra esmagando-a com todos nós.  Drummond dizia, na VIII estrofe da filosófica Nosso Tempo, sobre os poetas, que estes devem declinar de sua responsabilidade na marcha do mundo capitalista, para amanhã destruir tal marcha. Estamos eternamente declinando. Não me entreguei. Nem muito menos deixei de acreditar. E entendo o seu plano Brecht, que é, Grande, é irrealizável, mas isso jamais era sinal de entrega, de desistência, mas há momentos que o nosso choro é tão grande que lembramos mais ainda dos destinos de Eleonor, Laura, Lafargue, Benjamin, Maiakovski, Frei Tito... Em todos existia uma vontade colossal de viver... de esbanjar-se loucamente naquilo que dava sentido a suas vidas. Minhas células insistem em lentamente morrerem, enviando de volta uma quantidade menor de células, até nenhuma mais existir. Biblicamente, a vida plena não se faz antes dos 100 anos. 

Hoje, tão alheio aos suores da ilha que moro, me deparei, quase meio dia, com a informação que ontem, na penitenciária, haviam mortos. Só ontem? Como odeio a mídia. Em toda minha plenitude, juro, que ei de um dia enfiar meus fracos pulsos em vós. No seu débauche habitual, expõe não só corpos ensanguentados ou a desinformação ideológica, mas o coração já tão maltratado daquelas mulheres que na porta dos presídios choram, choram, choram... Quem ouve o choro daquelas mães? Daquelas esposas, amantes, filhas? Tão poucos. A maioria, enfeitiçada pela canalhice dessa podre política, certamente entoa cantos sacros despachando tais infelizes com as intelectualizadas frases “foram tardes”, “menos uns bandidos”. Vós que sois bandidos. A sua bandidagem se mede na hipocrisia de se sentir afrontando com a violência estrutural e alimentar as bostas bestializadas. Somos todos bandidos. Não sou como vós, pequeno-burgueses medíocres, que pensam que um dia serão maiores do que são. A corrente impetuosa é chamada de violenta. Mas o leito do rio que a contém ninguém chama de violento. A tempestade que faz dobrar as bétulas é tida como violenta. E a tempestade que faz dobrar os donos dos operários na rua? 

Mas voltei à terra, esta forma geométrica que jaz. E vi a cidade sitiada. Choros de alunos desesperados. Pais desesperados. Somos todas vítimas, mas sei que há vitimas mais que outras  Não sei ir dormir e pensar que nada aconteceu. Ou ouvir mensonges intellectuelle e dizer “é verdade”, “é isso mesmo”. Por que na minha carnuda boca soa mais o “não” que o “sim”? Teria culpa meu pai, minha mãe? Obrigados meus amados. Sinto-me bem assim. E nem importa se como de costume sou identificado como "daqueles radicais, sonhadores, utópicos, comunistas". Sou tudo isso e muito mais. Sou amor. Sou fogo. Sou tesão. Sou arma. Sou faca. Sou multidão. Sou fraqueza. Sou uma louca anatomia. 

Por que os famélicos da terra não se levantam e enterram com uma cacetada só este mundo tão enferrujado, tão contaminado, onde os solos já se são tão infértil? Eu, que nada mais amo, do que a insatisfação com o que se pode mudar. Nada mais detesto, do que a insatisfação com o que não se pode mudar. Sim Brecht. Sei disso. E como me jogo. Como me arrisco. Esqueço ventos nas praças noturnos para me enfiar nas praças diárias, e lá, tantas histórias abafadas, tantas histórias esquecidas. Vento quente. Quentura da paixão. Mas muita gente daquela multidão, nem sabe que na calculadora dos contadores estatais, seria melhor já ter partido. E a crueldade se torna forca quando sabemos bem que mesmo não estando na P.E. A, ainda muitos servem, como pressão, como salvação, como coroação de um mundo que sinceramente já deu. Mas, não nos preocupemos, pois para cada fadado episódio, há várias fardas. Sei que são também vitimas, mas como posso flores lhes entregar se são soldados prontos a nos atacar, a nos julgar, a nos crucificar. Como arde minhas veias a sentença de muitos “ menos um bandido”. Que a chacina de pretos, pobres prossiga. É o nosso holocausto. Pagamos um preço elevado por sermos  substituíveis. 

Rosa. Oh, Rosa Vermelha. Ali, tinha me referido a ti. Mas ainda não a altura de tua grandiosidade. Lembro um texto, dos meus tempos de juventude, quando eu acreditava fielmente que fé e política caminhavam juntas. Sei hoje mais do que nunca, ao meu referir ao congresso brasileiro, esta sentença é certeira. No lugar que deveria ser da política, há a fé e a deformação da política e por que não dizer também, a deformação da fé, que não é mais aquele grito profético do reformismo radical, mas um antro de mercadores da teologia da propriedade. Já nem se tem a fé como os idealistas da Teologia da Libertação... são tempos tenebrosos... Mas Rosa nos escreve muito bem quando dizia que os socialistas desejam pôr fim em execução o estado de “Comunismo”; é principalmente isso que o clero tem contra eles. Em primeiro lugar, é chocante notar que os padres de hoje, que combatem o comunismo, condenam, na realidade, os primeiros apóstolos cristãos. Estes não passaram, de fato, de ardestes comunistas. 

E o que dizer de Jesus. Tão impactante sua figura. Sei que mesmo se sua existência histórica se materializar na história, ela jamais foi além daquilo que sua época exigia. E foi além. Mas seus filhos e filhas não entenderam muito bem. É fabuloso ver que um dos maiores princípios cristãos, o da conversão, nem mesmo eles acreditam, quando em vez de serem os primeiros a defenderam arduamente um sistema penitenciário que de fato ressocialize, entoam seus cantos fúnebres de algoz, preparando o caixão das infelizes almas, mas nem isso tais almas terão. Os novos fariseus vão para as ruas exigirem leis mais severas, como se fosse possível os lírios nascerem das leis. Vão à Drummond e saberão o que ele diz. Defendem a pena de morte, talvez por estes  nem perceberem a mensagem libertária daquele que dizem seguir. É extremamente asqueroso, repugnante, deplorável, assistir e verificar tantos racionais indo às ruas como seres idiotizados, submetidos totalmente à fabulação totalitária imposta pelos Daimons do dinheiro, da mercadoria. No fundo dos vales escuros morrem os famintos. Mas você lhes mostra o pão e os deixa morrer. O que queria Brecht com tal Hino a Deus? O que quero profanando as santas almas que lotam todo sábado e domingo os cultos e missas desse país? Lá, não existe amor. Não existe perdão. Nem a mísera compaixão. Por isso Brecht, tu se indagavas de que serve a bondade, se os bons são imediatamente liquidados, ou são liquidados? Compreendo-te muito bem.  Em Deus não há bondade. Gorki encontraria conforto na sentença "A Igreja é o túmulo de Deus". 

Muitos dizem que esse tempo é velho. Mas eu sempre soube que é um novo tempo. E sempre será. Será por que Trotski, mesmo perseguido pelo totalitarismo stalinista, não receou em dizer a vida é bela. E ela é, linda, encantadora. Não viveria sem ela. Como o ar que circula, nos levanta, nos faz na forma dos ventos, voar sem esquecer as obrigações cotidianas. Mas um dia sei que tudo será diferente. Por nós que ainda amamos. Por nós que ainda teimamos em amar. Digo, como dizia Brecht,  Por que temem tanto a palavra clara?

Cláudio de Souza Mendonça

 obs: as palavras em itálico são de autoria de Bertolt Brecht, de inúmeras poesias contidas no livro Bertolt Brecht. Poemas 1913-1956. Editora 34. 2012



Regar o Jardim

Regar o jardim, para animar o verde!
Dar água às plantas sedentas! Dê mais  que o bastante
E não esqueça os arbustos, também
Os sem frutos, os exaustos
E avaros! E não negligencie
As ervas entre as flores, que também
Têm sede. Nem molhe apenas
A relva fresca ou somente a ressecada:
Refresque também o solo nu

Bertolt Brecht